As cortinas estão fechadas e as luzes estão desligadas. O triste palhaço vai se retirando de cena. Ele volta lentamente para o seu camarim. Quando chega, retira do seu rosto a velha maquiagem de sempre. E, ao se olhar no espelho, se lembra de todos os sonhos que perdeu. Ele sente um vazio. Nos sorrisos de cada espectador, a confirmação da sua tristeza. No ritual de tirar a sua máscara, ele se lembra de quantas lágrimas escondeu. Durante noites tão banais, ele percebeu que o amor nunca chega.
No seu caminhar solitário de todos os dias, ele se perde nos seus inúmeros pensamentos. Ele ainda tenta sonhar. Se esquece, por um instante, de tudo que tem que esconder. Até do seu triste papel de fazer rir quando se quer chorar. Em sua casa, os seus gatos, Amélie e Lestat, estão com fome. Nos espaços, a confirmação de uma ausência. O seu corpo é a representação da fraqueza da sua alma. Na sua mão, uma taça de Absinto. O velho palhaço está cansado desse vício de interpretar. O amor nunca chega. Talvez ele ainda acredite, mas o amor nunca chega.
Talvez essa noite seja como todas as outras. Mais uma noite que ele dança com a própria solidão e brinca de ser feliz sem se importar com as lágrimas em seu rosto. Nesse momento, as estrelas são as testemunhas. Mas pouco tempo depois ele está no chão. O peso da realidade em sua volta é mais pesado. Ele se lembra do vazio que sente e de quem não está mais ali.
Ele não acredita mais no seu trabalho, nas promessas e no amor que nunca vai chegar. O velho palhaço, cansado do vício de interpretar, decide sair de cena para sempre.
Go
Há 14 anos
